23 DE MAIO. Levantei de manhã triste porque estava chovendo. O barraco está numa desordem horrível. É que eu não tenho sabão para lavar as louças. Digo louça por hábito. Mas é as latas. Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas. Eu não sou desmazelada. Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado. Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu, não adianta olhar pra cima. É igual a nós que não gostamos da favela, mas somos obrigados a residir na favela.

Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetaculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles. Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá. Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia.

Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados. Alguns nomes já são conhecidos. São reincidentes que já foram preteridos nas urnas. Mas o povo não está interessado nas eleiçoes, que é o cavalo de troia que aparece de quatro em quatro anos.

O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas citilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.

A Theresa irmã da Meyri bebeu soda. E sem motivo. Disse que encontrou o bilhete de uma mulher no bolso do seu amado. Perdeu muito sangue. Os médicos diz que se ela sarar ficará imprestável. Tem dois filhos, um de 4 anos e outro de 9 meses.

Carolina Maria de Jesus



PAULO CÉSAR PINHEIRO - O LAMENTO DO SAMBA - 2003

3 Comments:

At 13 de maio de 2009 às 18:55, Anonymous Graziele Saraiva said...

Mto interessante, de onde esse texto, quem é a Carolina? Valeu ;)

 
At 14 de maio de 2009 às 19:37, Anonymous Fiume420 said...

Oi, Graziele.

Maria Carolina era uma moradora da favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, que tinha a escrita por hábito.

Os trechos que postamos são do seu livro mais famoso, o diário "Quarto de despejo". Sei que ela tem outros livros, mas nunca vi.

 
At 14 de maio de 2009 às 19:40, Anonymous Fiume420 said...

digo, Carolina Maria

 

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